30 de setembro de 2012

Três aniversários (economia)

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Por Adriano Benayon

I — 24 de agosto de 1954
Este aniversário é o da deposição do presidente Getúlio Vargas, programada e dirigida pelos serviços secretos estadunidense e britânico.
2. A quadra histórica era decisiva. O  Brasil – desde sempre dotado de colossais recursos naturais – havia, a partir de 1930, acelerado o processo de substituição de importações industriais, graças a três fatores principais:
a) a falta de divisas, advinda da crise financeira e econômica mundial, com a queda da demanda por café e outros produtos primários;
b) a tensão entre potências mundiais de 1933 a 1939, e daí a 1945 a Segunda Guerra Mundial;
c) a Revolução de outubro de 1930 e os posteriores eventos políticos no Brasil até à primeira deposição de Getúlio Vargas, em 29.10.1945.
3. Os dois primeiros fatores são as condições de crise e oportunidade. O terceiro é o papel das instituições políticas  geradas em resposta à crise, as quais transformaram a estrutura econômica no sentido de reduzir a dependência da exportação de matérias-primas. Além disso, Vargas mandou proceder à auditoria da dívida e liquidou os títulos no mercado secundário, com grande desconto.
4. Ele se manteve na chefia do governo durante aqueles 15 anos, conquanto de novembro de 1937 a 1945 dependesse das Forças Armadas, a fonte de poder instituidora do Estado Novo.
5. Por terem as políticas de Getúlio Vargas desagradado as potências anglo-americanas, era questão de tempo ele ser apeado da presidência,  terminada a Guerra Mundial (maio de 1945).
6. Durante a Guerra,  Vargas teve de colaborar com essas potências, as quais, não mais precisando dele, teleguiaram  a oligarquia local, políticos, mídia e chefes militares para depor o “ditador”, sob o pretexto de que queria ficar no poder.
7. Isso não tinha cabimento, porque Vargas convocara eleições e se dispunha a passar a presidência ao eleito. O golpe de 1945 foi só vingança e tentativa de humilhar o líder trabalhista.
8.  Por ocasião do golpe de 1937, os chefes militares, movidos pelo anticomunismo, estavam divididos entre simpatizantes do imperialismo anglo-americano e partidários das potências nazi-fascistas.  Assim, Vargas pôde atuar como fiel da balança e no interesse nacional.
9. Os militares nacionalistas não ocupavam posições que lhes habilitassem a  imprimir rumos diferentes, em 1937, e menos ainda em 1945, quando os de tendência fascista convergiram com os admiradores das potências anglo-americanas.
10. Eleito em 1945, o Marechal  Dutra (1946-1950), mentor do golpe de 1937, reprimiu os comunistas, converteu-se mais que à “democracia” , à abertura irrestrita às políticas do agrado de Washington.
11. Entretanto,  Vargas ganhara  a simpatia dos trabalhadores, elegeu-se senador por vários Estados, e voltou à presidência em 1951, por grande maioria popular. Criou a Petrobrás e deu  passos para a fundação da Eletrobrás. Apoiou os excelentes projetos de sua assessoria econômica e cuidou de deter as abusivas remessas de lucros ao exterior das transnacionais.
12. Se prosseguissem as realizações de Vargas,  o Brasil teria chances de se desenvolver,  e esse foi o móvel do golpe de agosto de 1954, organizado pelas potências imperiais.
13. Os agentes externos postos por esse golpe  na direção da política econômica instituíram enormes subsídios em favor dos investimentos  das transnacionais, que operavam em muitos mercados no exterior, cada um de dimensões muito maiores que o brasileiro.
14. Em vez de proteger as indústrias de capital nacional para viabilizar competirem com as transnacionais, aquelas sofreram discriminação,  com os imensos subsídios que só podiam ser utilizados pelas corporações estrangeiras.
15. Eleito para o quinquênio 1956-1960, Juscelino manteve esses subsídios e estabeleceu facilidades adicionais para as empresas estrangeiras. Implantadas no País, estas transferem ao exterior, de diversas maneiras, os enormes lucros obtidos no mercado brasileiro, causando déficits no Balanço de Pagamentos.
16. Primeira cena dessa tragicomédia: eleito, antes de tomar posse, JK viajou ao exterior para atrair investimentos estrangeiros, com notórios entreguistas na comitiva.  Segunda cena: sai JK, entra Jânio Quadros, e este envia ao exterior missão chefiada por Roberto Campos para rolar dívidas externas vencidas, contratadas durante o governo de JK.
17. Depois do conturbado período entre a renúncia de Jânio e o golpe de 1964, derrubando Goulart, o primeiro governo militar, a pretexto de fazer face à alta da inflação e à crise externa, adotou, sob a direção de Roberto Campos, políticas fiscal, monetária e de crédito restritivas, eliminando grande número de empresas nacionais.
18. As lições econômicas disso tudo são importantes, como também as lições políticas. Entre elas avulta esta: prevalece sobre a Constituição escrita  a regra constitucional, não-escrita, de que os governos em regime “democrático” só concluem seus mandatos, se se curvarem às pressões das potências imperiais.
19. Vargas e João Goulart realizaram políticas que visavam a gerar maior autonomia econômica para o País, embora fizessem concessões ao poder imperial.
20. Diferentemente, Dutra cedera aos interesses das potências estrangeiras, e JK deu-lhes plena satisfação no essencial: a abertura aos investimentos estrangeiros, escancarada pela outorga de privilégios que permitiram as transnacionais, a médio prazo, assenhorear-se do mercado brasileiro.
21. Até a proteção tarifária e não-tarifária aos bens duráveis produzidos no Brasil significou uma vantagem a mais às multinacionais, ampliada, quando, em 1969-1970, Delfim Neto estabeleceu vultosos subsídios para a exportação de manufaturados, entre os quais créditos fiscais no valor do imposto de importação dos bens de capital e dos insumos.
22. Os governos militares de 1967 a 1978 tentaram redinamizar a economia sem alterar o modelo dependente, nem garantir espaço às empresas nacionais em face da então já dominante ocupação do mercado pelas transnacionais. O resultado disso nos leva a outro aniversário.
II — Agosto/setembro de 1982
23. Em 16.08.1982, o México declarou moratória.  Em seguida, o setembro negro, em que os gestores da política econômica brasileira, sob o espectro da inadimplência, imploraram aos  banqueiros internacionais refinanciar as dívidas.
24. A crise de 1982 foi muito maior a de 1961, gerada pelas políticas de 1954 a 1960. A causa essencial de ambas foi a mesma: a ocupação dos mercados pelas transnacionais, intensificada de 1964 a 1982.
25. JK recebeu a dívida externa de US$ 1,4 bilhão em 1955. Ao sair, deixou US$ 3,5 bilhões. Em 1964 ela fechou com US$ 3,1 bilhões, pulando para US$ 43,5 bilhões, em 1978, e para US$ 70,2 bilhões em 1982, tendo-se avolumado ainda mais pela elevação das taxas de juros e comissões, em 1979, além da composição desses encargos arbitrários.
26. As altas taxas de crescimento do PIB de 1967 a 1978 foram pagas pelo povo brasileiro, não só com a queda do PIB, de 1980 a 1984, e a estagnação nas duas décadas perdidas (anos 80 e 90). Em 1984, o Brasil transferiu para o exterior 6,24% do PIB e mais 5,54% em 1985.
27. Mas o dano maior - e irreversível sob as presentes instituições - é a  deterioração estrutural.   Essa prossegue até hoje e se caracteriza pela infra-estrutura deficiente e pela produção  quase totalmente desnacionalizada, inclusive através das privatizações de 1990 a 2002.
28. Há um processo cumulativo em que a desnacionalização faz crescer a dívida, e esta é usada como pretexto para desnacionalizar mais. Tudo isso faz prever novas e piores crises, em que cresce a desindustrialização.
29. As débâcles, como a de 1982, ilustram a mentalidade servil diante dos “conselhos” e pressões imperiais, pois o Estado brasileiro curvou-se às imposições dos credores, aceitando a integralidade de dívidas questionáveis, depois de tê-las alimentado, subsidiando a ocupação estrangeira da economia e inviabilizando a tecnologia nacional.
30. “O Globo” veicula a desculpa de Delfim Neto, de que  o colapso de 1982 decorreu da elevação dos preços do petróleo.  Isso não procede: a Argentina não importava petróleo, e o México era grande exportador. O denominador comum das maiores economias latino-americanas é o modelo dependente.
31.  Nos anos 70, a Petrobrás já substituía razoável quantidade de petróleo importado, e as importações eram pequena fração das de Alemanha, Japão, França.
32. O primeiro choque do petróleo deu-se em 1973. Daí a 1982 são nove anos. Tempo suficiente para medidas na estrutura produtiva, com resultados em seis anos, antes, portanto, do segundo choque do petróleo em 1979.
33. Tecnologia não faltava para substituir as importações de petróleo. O Brasil havia adotado, durante a Segunda Guerra Mundial,  uma solução que funcionou muito bem: o gasogênio, para mover  os veículos, com equipamentos que usavam carvão mineral do Sul, carvão e óleos vegetais. Foi abandonado após a Guerra, mas poderia ter sido retomado em 1973.
34.  Geisel apoiou Severo Gomes e Bautista Vidal, no Programa do Álcool. Mas este não prosseguiu na forma planejada, nem se avançou  nos Óleos Vegetais, que oferecem ao Brasil grande campo – até hoje inaproveitado – para produzir excelentes óleos e fabricar motores próprios para eles.
35. O dendê, na Amazônia e no Sul da Bahia, pode render mais de 6 mil litros hectare/ano. Para produzir quase tanto como a Arábia Saudita, ou seja, mais de cinco vezes o consumo brasileiro da época, bastaria plantar dendê em 60 milhões de hectares, ou seja, 12% da Amazônia Legal, associado a culturas alimentares. Em outras regiões a macaúba dá 4 mil litros ha/ano.
36. Essas opções são mil vezes melhores para a ecologia que extrair madeira para exportar, enquanto as ONGs vinculadas ao poder mundial fazem demagogia a respeito do desmatamento da Amazônia.
37. O óxido de carbono só é absorvido pelas plantas quando crescem. A Amazônia, com a floresta estável, não é pulmão do mundo. Esse papel cabe aos oceanos, que as petroleiras mundiais poluem de modo brutal.
38. É fácil e praticado, há muito, na Alemanha, produzir kits para adaptar motores ao uso de óleo vegetal. Melhor seria, mas o sistema de poder nunca o permitiu - produzir motores para esse óleo, o verdadeiro diesel. Biodiesel é um dos golpes do sistema para impedir o desenvolvimento dessas tecnologias, bem como as da química dos óleos vegetais e da alcoolquímica.
39. A deterioração das contas externas no final dos anos 70 serviu de gazua para a penetração do Banco Mundial no Programa do Álcool, desvirtuando-o, pois foi desvinculado da produção alimentar e tocado no  sistema de plantations e mega-usinas, hoje, na maior parte, desnacionalizadas.
40. Moral: se houvesse autonomia política, coragem e discernimento, ter-se-ia aproveitado o choque do petróleo para desenvolver produções agrárias e industriais com tecnologia própria e adequada aos recursos naturais. Resultaria em prosperidade social incalculável com a energia renovável, além de esse padrão de desenvolvimento autônomo estender-se a outros setores.
41. Em suma, o mega-entreguismo de Collor e FHC não teria sido possível sem as políticas inauguradas em 1954 e continuadas de 1956 a 1960 e de 1964 até hoje. Por que? Porque essas políticas engendraram a relação de forças econômica e política determinante das desastrosas eleições daqueles dois.
III — Sete de setembro de 1822
Está, pois, claro que o povo brasileiro precisa de real independência e que esta não existe. Não merece crédito o argumento de que há autonomia política, embora falte a econômica, porquanto uma não é possível sem a outra. Não se confunda a independência formal com a real.

Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras SP

Hiroíto, o rei (cinema)


Por Jorge Nagao

Rei? Não, estranharão alguns leitores, Hiroíto foi imperador. Então, esclareço que trata-se  de um Hiroíto brasileiro cujo pai era fã do país do sol nascente. Yamaguchi Falcão, boxeur medalha de bronze  nas Olimpíadas de Londres, é um belo exemplo dessa reverência prestada por seu pai a um amigo nissei. Quantas Sayonaras existem por aí como a filha do jogador palmeirense Obina.
Idolatrado no Japão e respeitado no exterior, o nome do imperador japonês foi recorrentemente registrado em cartórios do Brasil especialmente nos anos 30 e 40. O pai de Hiroíto de Moraes Joanides, um grego, não imaginava que o seu filho se tornaria um rei. 
Filho de uma família de classe média, Hiroíto, paranaense de Morretes, nasceu em 1936. Teve uma infância normal. Sua vida mudou quando foi à chamada boca do lixo para satisfazer os seus hormônios em ebulição. Gostou do local. E voltou muitas vezes. 
Em 1957, seu pai foi assassinado a navalhadas. Hiroíto foi acusado pelo crime  mas não foi preso. Decidiu mudar para o chamado quadrilátero do pecado. Não como um simples morador, mas sonhando em ser o imperador daquele submundo no centro da cidade, nos arredores da estação rodoviária paulistana no final dos anos 50.
Franzino, de óculos, culto, não tinha outra opção para se impor a não ser portando armas. Comprou dois revólveres porque as navalhas começaram a ficar restritas aos salões de barbeiros. Ao presenciar uma agressão à uma prostituta, esmurrou o agressor que revidou com pauladas; acuado, Hiroíto sacou a arma e matou pela primeira vez. Passou a ser admirado pelas pecadoras. Tempos depois, desacatado quando jogava bilhar, o “japonês”,  como era chamado, não hesitou: passou fogo no desafeto. Mesmo assustado com a sua atitude, sentiu-se o cara. Era o início da carreira do poderoso chefão.
Logo, de boca em boca, o seu nome foi crescendo na boca do lixo. Com muita astúcia e crueldade, traficando drogas e corrompendo policiais, Hiroíto foi dominando ruas e quarteirões. Quando era preso, um pacote de dinheiro resolvia o seu problema. Traficando, assasinando friamente os seus concorrentes, virou o rei da boca. Dormia pouco pois era perseguido tanto por policiais quanto por bandidos. Para se manter vigilante drogava-se constantemente. Reinou por três ou quatro anos, até que um dia, a casa dele caiu.
Preso durante sete anos, escreveu o livro “Boca do Lixo”, lançado nos anos 70 e relançado neste ano pela Labortexto. O livro retrata aquela São Paulo dos anos dourados e a trajetória do “japonês” que queria ser amado e tinha o prazer de ser temido, conforme anuncia o filme “Boca”, de Flavio Frederico. A crítica destaca as magníficas atuações de Daniel de Oliveira e Hermila Guedes. O filme que levou quatro prêmios no Festival de Recife, estreia nos cinemas em 28 de setembro. Lançado em DVD no exterior como “Boca the real goodfather” foi muito elogiado pela reconstitução da época pelo renomado jornal Variety. Para quem gosta de ação e não se importa com tantos tiros, consumo de drogas e safadezas em geral, como mostra o thriller, é um prato cheio.

Jorge Nagao é escritor e jornalista

Estação Che (literatura)


Por Afonso Guerra-Baião

Outra vez é tempo da bela Estação. As mesmas flores voltam com os eternos pássaros – e, no meio dos ruídos mutantes da cultura, se apurar o ouvido consigo ouvir Vivaldi. Nas entrelinhas da realidade sem mistérios é possível pressentir o mistério do mundo. Num exercício de meta-arqueologia, redescubro uma frase que poderia ser atribuída a um poeta ou a um místico: “Eles podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera.” Essa frase é de um guerrilheiro: Ernesto Guevara de la Serna, o “Che”.
Todos sabem que Guevara foi executado pelos militares bolivianos em Higueras, no florescer da primavera: nove de outubro de 1967 – dois anos depois de ter renunciado ao cargo de Ministro da Indústria do Governo de Cuba. Na narrativa de sua existência, a revolução vitoriosa em Cuba constitui a prova principal; paradoxalmente, ele viveu sua prova glorificante nas selvas da Bolívia, onde encontrou sua hora e sua vez. Esses episódios constituem o eixo narrativo dos dois filmes de Steven Soderbergh, com magistral interpretação de Benício del Toro.
O que talvez nem todos saibam é que no intervalo entre essas, o Che viveu duas provas qualificantes: a malsucedida guerrilha no Congo e sua estadia em Praga por um ano, num período de preparação da campanha na Bolívia.
Nesse espaço de tempo dedicado ao recolhimento, à espera e ao planejamento, Che Guevara teria escrito os “Cadernos de Praga” que desapareceram com seu autor. São esses cadernos que outro argentino, Abel Posse, recriou no plano da ficção, baseado em depoimentos e pesquisas documentais – cadernos de notas pessoais, impressões subjetivas, em que o guerreiro mítico se mostra também um homem cheio de desejos e dúvidas.
“Cadernos de Praga”, publicado no Brasil pela Editora Record, traz como uma de suas epígrafes esse dizer de Kierkegaard:
“Os grandes serão lembrados. Mas cada um deles foi grande com relação às suas expectativas. Um foi grande esperando o possível. Outro, esperando o eterno. Porém quem esperou o impossível foi o maior de todos.”

Afonso Guerra-Baião é escritor

Melhor prevenir (saúde)


Por Adilson Luiz Gonçalves

O Brasil gastou quase R$ 21 bilhões, em 2011, para tratar de doenças relacionadas ao consumo de tabaco!
Consta que o fumo é causa de 82% dos casos de câncer de pulmão; 83%, dos de laringe; 13%, dos do colo do útero, e 17%, de leucemia mieloide.
A tributação sobre o tabaco não cobriria apenas 30% dessa “remediação” bilionária!
Mas, como vai a prevenção?
No Brasil, a publicidade é proibida e os malefícios do fumo são informados nas embalagens, com fotos dramáticas.
Incomodados que não querem mudar, alegam que isso é constrangedor e inútil. Em parte, têm razão, pois virou moda jovens comprarem cigarros “coloridos”, por unidade, ou fumarem “narguilé”, cem vezes pior que o cigarro. Provavelmente, isso não funcionaria nem em rótulos de bebidas alcoólicas.
Quem tem o vício e não reconhece, dificilmente ficará sensibilizado com esse tipo de conscientização. Acredita que isso não afeta os outros; que fuma porque gosto; que é “elegante”...
A ação mais efetiva foi o advento das leis antifumo, que tiveram ampla e positiva aceitação, mesmo entre fumantes. No entanto, seus detratores ainda tentam revogá-las, alegando inconstitucionalidade, discriminação, prejuízo financeiro, etc.
Mas, e quanto à prevenção?
Ele deve ocorrer na infância e adolescência, fase de autoafirmação em que os jovens correm o risco de buscar “independência” em falsas amizades e, mesmo, nos exemplos familiares.
Apesar de ter experimentado cigarro nessa época, não sou fumante. No entanto, meio pai fumava desde os 8 anos de idade, numa época em que homem cortava cabelo “americano curto”, usava navalha e fumava cigarro de palha ou sem filtro.
Como ele trabalhava em três turnos, eu adorava vê-lo fazer barba, entre uma e outra tragada no cigarro. Aquela mistura de mentol e fumo tinha cheiro de “pai em casa”!
Ele nunca nos incentivou a fumar, mas, essa imagem prazerosa potencializava isso. Meu irmão mais velho fumou, por pouco tempo. Outro, também mais velho, ainda fuma.
No que fui diferente, quando fumar era tido como um “rito de passagem?
Bem, aos 11 anos vi, na escola pública, um filme no qual um sujeito, após fazer um exame respiratório, ao acaso, foi informado que estava com o pulmão afetado.
— Porquê? — perguntou, surpreso, acendendo novo cigarro, para ouvir que a resposta estava em sua mão... Em seguida, veio a cirurgia para remoção de um pulmão totalmente enegrecido.
Logo que vi meu pai, pedi desesperadamente para ele parar de fumar! Não questionei sua autoridade: só quis livrá-lo do mesmo risco!
Pouco tempo depois, ele parou de fumar definitivamente.
Depois, lecionei Informática em cursos da área de saúde e vi trabalhos mostrando os resultados de acidentes provocados por bêbados e drogados. Terapia de choque, para não esquecer e evitar!
Será que as escolas fazem esse tipo de alerta aos adolescentes? Ou alguém considera que isso seja chocante demais.
Não é melhor mostrar exemplos dos resultados antes que amigos imbecis, traficantes ou pais “distraídos” ou convictos de seus “direitos” induzam nossos jovens aos vícios?
Essa ação educativa precoce contra: fumo, álcool e outras drogas — e, porque não, contra a corrupção! — seria muito mais eficaz do que imagens em rótulos, para quem já é dependente!

Adilson Luiz Gonçalves é membro da Academia Santista de Letras. Mestre em Educação, escritor, engenheiro, professor universitário e compositor. Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento). Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: algbr@ig.com.br e prof_adilson_luiz@yahoo.com.br. Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59

A dor do inevitável (conto)


Por Cinthya Nunes

Meu desejo é que você tenha saúde e vida longa. Desejo, porém, que uma vez, uma única só vez na vida, você fique doente. Desejo que parte de sua saúde lhe deixe, temporária, mas incisivamente, somente o suficiente para que você possa de fato sentir a falta que ela lhe faz e o valor que ela tem.
Desejo que nessa provação, você se dê conta da fragilidade de sua existência e de quanto é tênue e delicado o fio que o mantém no mundo dos vivos. Desejo que você sinta medo ao perceber que não é de aço, de pedra ou imortal e que basta um simples sopro do destino para apagar a fraca chama que anima seus dias e suas horas.
Desejo que você, nessa hora, tenha a real compreensão da dor e do desespero alheios, especialmente daqueles que não vão melhorar dentro de alguns dias ou dentro dessa vida. Desejo que no auge da sua própria angústia pelas forças que lhe faltam, você entenda o andar descompassado e vacilante do velho em quem você acredita que nunca irá se tornar.

Cinthya Nunes é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras (cinthyanvs@gmail.com)

Todo mundo isso, todo mundo aquilo (crônica)

Por Alexandre Brandão

Nunca saio de mim/Por isso sou só//Tenho uma camada de pó/Tomo remédios coloridos//Escuto com três ouvidos/E vejo com um olho só//Agora me olha e me diz/Se estou certo//Se sou mesmo este céu deserto (“Certeza sem nuvens e estrelas”, Rodrigo de Souza Leão)

Todo mundo arrasta uma simpatia por alguém que perdeu o prumo, saiu de órbita, bateu as asas para nunca mais pisar na terra — os lunáticos ou nefelibatas, os que mendigam o impalpável, os que se alimentam de luz. Todo mundo não se furta de bater papo com o doidivanas da praça, com a tresloucada que recolhe quinquilharias nas ruas do bairro. Todo mundo conta com sarcasmo as peripécias de um avô meio zureta. Todos estimamos, de fato, os que não saem de si.
Todo mundo comenta, com maldade e uma ponta de inveja, o nível de liberdade com que guia a própria vida a jovem atriz ou o marrento jogador de futebol. Liberdade uma ova, inveja-se o fato de um ou outro passar sem cerimônia por cima do que está longe de ser um reles cadáver. Todo mundo suspira pelo vilão charmoso da novela das nove. No fundo, todo mundo anseia uma aventura como a de disparar com o carro por avenidas impróprias à velocidade ou a de beber até dizer chega e enfrentar com ironia uma autoridade.
Todo mundo quer comer sem pagar. E quer cagar e andar pros problemas, pras dívidas, pro compromisso amoroso. Todo mundo deseja comprar uma passagem só de ida. Todo mundo preferiria agir antes de pensar. Em segredo, rimos do tombo alheio.
Não para aí, então continuo: todo mundo (eu, você e eles) gosta mesmo do politicamente incorreto, das piadas que caçoam das minorias, da cutucada dada nos que olham o mundo com inocência: os bem limpinhos e corteses. Todo mundo só pensa em sexo, nada disso de amor. Todo mundo acha que dinheiro roubado é dinheiro achado, logo, emite nota fria e lava dinheiro.
Todo mundo come de boca aberta. E prefere espancar a educar. Todo mundo gostaria que os outros morressem antes de chegar à velhice, que significa apenas despesa e caduquice. Todo mundo acha que os recados de seu intestino cheiram à flor. Todos, sem exceção.
No andar da carruagem, o império do eu-sozinho acabará triunfando. Os efeitos serão danosos, estou certo disso. E, preocupado — preocupado na mesma extensão com que me preocupo com o provável desastre ambiental que nos ronda —, lanço esse canto muitas vezes já cantado, inclusive por sábios. Canto que realça a importância do outro nas nossas vidas.

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Nisso de falar “todo mundo isso, todo mundo aquilo”, vem à minha memória nada tranchã certa história contada pelo cineasta Bigode (Luís Carlos Lacerda) sobre sua amiga Leila Diniz. Depois de uma apresentação — naqueles anos de chumbo da década de 1960 —, um militar adentra o camarim da atriz, leva-lhe flores. Ela, educada, agradece. O senhor então, em tom de ordem do dia, intima-a a jantar com ele. Leila recusa o convite — ou desobedece à ordenança. Ele, furioso: “Eu sei que você dá pra todo mundo.” Ela então: “Sim, dou pra todo mundo, mas não pra qualquer um.”
Leila Diniz, de fato, estava à frente do seu tempo. Quando vejo as manifestações recentes das mulheres lutando pelo direito de tomar posse política do próprio corpo, lembro-me dela. As “vadias” têm o espírito de Leila. Elas são a voz do outro, aquela que todo mundo deveria ouvir antes de falar ou de agir. Eu presto atenção nessa voz e me sinto feliz por estar vivo para isso.

Alexandre Brandão é escritor, autor de “Contos de homem” (Aldebarã, 1995), “Estão todos aqui” (Bom-texto Editora, 2005) e “A câmera e a pena” (Editora Cais Pharoux, 2009). Presente na coletânea “Amores vagos” (selo Estilingues). Lançou “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux) , que pode ser adquirido na Singular. Visite seu blog

Os Poços fundos da alma (crônica)


Por Denise Ribeiro

“Você não quer ir para Poços de Caldas neste final de semana?”. Pega assim de surpresa com a pergunta, ela não soube nem o que dizer. Do outro lado da linha, a amiga de uma amiga, que trabalha com turismo e nunca a viu mais gorda, espera a resposta.
Fica imaginando que a moça está caçando turistas a unha, oferecendo o “pacote” para o açougueiro, a feirante da barraca de frutas, a comadre da igreja. Balbucia um “não” desengonçado, agradece e desliga meio ofendida com a falta de senso da mulher. Então você sai por aí convidando qualquer um e todo mundo para uma viagem, sem conhecer o perfil do seu cliente em potencial?
Só mesmo quem nunca tivesse trocado meia dúzia de palavras com ela poderia imaginar que se animasse com um destino tão pouco desejável quanto Poços de Caldas. Talvez daqui uns 30 anos, quando tivesse uns 80 e uma coleção de artroses berrando por um recanto confortável. Sim, Poços é uma cidade agradável, bonitinha, mas sem atrativos que mobilizem seus sentidos.
Justo ela, que gosta de cidades pulsantes, que sonha em revirar o mundo do avesso, iria investir tempo e dinheiro indo para Poços de Caldas? Ora, por favor, reclama alto, numa indignação dirigida a todos os conformados do planeta.  Sim, porque ela classifica de mesquinha essa gente contida em relação às fronteiras do mundo. E também faz ginásticas mentais para entender a inapetência por viagens de muitas pessoas. Que diabo, passar uma existência inteira dentro dos limites de uma minúscula cidade, sem nunca botar o pé em outro lugar?
Um frio cortante perpassa sua coluna só de se imaginar numa vidinha assim. Afasta o incômodo invocando memórias de viagens: a primeira vez que foi a Paris; o dia em que chorou vendo o original de um quadro de Boticelli num museu em Florença; os jardins encantados de Pedro, o Grande, perto de Leningrado; o relógio da praça central de Praga; as roupas coloridas das mulheres do Uzbequistão; o terror diante do leão, num safári na África do Sul.
Acorda da “viagem” com o toque de telefone. De novo a moça, insistindo em lhe empurrar o pacote, acenando com descontos “imperdíveis”, castigando sua alma de desbravadora com essa lenga-lenga de vendedor despudorado. “Poços?”, pergunta, e, diante do sim da mulher, impõe condições. “Só se forem poços de lágrimas de amor não-correspondido, poços de originalidade, poços de algodão doce, poços de estrelas cadentes, poços de amargura existencial, poços de risos loucos, poços de alquimias de carinho, poços de aurora boreal....”
Diante do mutismo do outro lado da linha, ela desliga o telefone, dá um longo suspiro e se sente plenamente vingada contra a mesmice alheia. Guarda no peito uma ponta de esperança de que seu pequeno ato de rebeldia contamine a alma da moça com um pouco de perplexidade e nonsense poético.

Denise Ribeiro é jornalista (denisemrib@gmail.com)

Veneza, a cidade-água (crônica)


Por Ivan Alves Filho

Eu conheço uma cidade-mulher. Ela existe, já que eu a conheço. Sei que ela existe, dentro e fora da minha imaginação. Acho que é a única cidade assim no mundo. Feminina. Pode ser que exagero, até, mas nunca vi nada tão sensual, ao menos em matéria de lugar. Trago até hoje seu doce perfume em minha pele e sua carne quente parece ter grudado para sempre na minha própria carne. Formamos uma coisa só, bem sei. As cumplicidades se forjam dessa maneira.
Essa cidade-fêmea foi o mais belo recanto que vi em toda minha vida.  As ruelas, as pontes, as praças, os canais e o céu, de um azul cristalino e eterno, tudo ali parece ter vindo ao mundo para nos encantar e encher nossos corações de funda alegria. O nome dessa cidade-mulher, dessa Veneza tão luminosa e calma, rima com beleza – e com o que mais haveria de rimar?
Veneza é cidade e Veneza também é mar. A cidade das calçadas de água. A Veneza dos vaporetto — esses ônibus flutuantes — e dos gondolieri — esses homens aquáticos, que caminham com suas gôndolas pelas águas, exibindo suas camisas listradas, seus chapéus pitorescos e seus cânticos tão envolventes e serenos. Qual o nome do maior pintor da cidade flutuante? Canaletto — que outro poderia ser? O simbolismo do mar é ali de tal ordem que, soube certa vez, a Festa della Sensa – a Festa da Ascensão — celebra o casamento da cidade com as águas.
Veneza é um sonho e o sonho é algo tão forte que, como lembra o argentino Ernesto Sabato, o próprio filósofo francês Renée Descartes, o senhor da razão, sonhou três vezes com suas complicadas teorias, antes de expô-las em seu famoso livro. Sonho, logo existo. Esse o seu método e o seu mérito: alcançou a razão sonhando. Não sei se o filósofo conheceu Veneza — mas sei que ela é a razão hoje dos meus sonhos.
Ah, Veneza e sua arquitetura de água! Cidade-água! Tudo ali flutua, à semelhança das suas pitorescas gôndolas. Pois na mágica cidade de Veneza, pelos segredos e curvas e enlevos daquela cidade-mulher, navegam palácios, praças, igrejas, catedrais. Navegam ruas e prédios inteiros, em alucinante paisagem que se deslocam o tempo todo. Navegam ali também o meu e o teu coração.
Vitória-régia das cidades, Veneza chega a provocar ciúmes, uma vez que só se deita com as águas.

Ivan Alves Filho é jornalista e escritor, e colaborador da Fundação Astrojildo Pereira (www.fundacaoastrojildo.org.br)

Casais (crônica)


Por Marilena Montanari

Ela entrou de mansinho, escolheu uma mesa de canto rodeada por algumas plantas onde pudesse ter uma visão de todo o espaço do pequeno restaurante. Ver sem ser vista. Pediu um whiskey sauer e, para espanto dos garçons, avisou que não esperava ninguém. Ficou ali bebericando e observando. Hoje era um dia especial.
As pessoas começavam a chegar.
Um homem grisalho, de jeans e camisa branca impecável entrou abrindo alas para exibir a jovem mulher, linda e grávida, de vestido curto mostrando as pernas bem torneadas. Ele pediu um Prosecco e ela tomou água aromatizada. Assim mesmo, fizeram vários brindes à sua felicidade. Lá ficaram um tempão se amando e conversando enquanto saboreavam a entrada. Ele, todo gentil, vira e mexe afagava o rosto e as mãos da moça com ternura exagerada. Sem dúvida, era o segundo (ou terceiro, quarto...) casamento dele.
Na mesa em frente, acomodaram-se dois rapazes. Falavam uma língua estranha. Russo ou polonês, quem sabe. O mais alto usava cabelo arrepiado com gel, paletó cereja e echarpe colorida. O outro usava rabo de cavalo, tinha a barba por fazer, vestia camiseta branca de gola alta e estava visivelmente irritado. Discutiram muito até as três garrafas de vinho surtirem o efeito desejado. Ela não descobriu exatamente o que eles pediram, mas os pratos vieram tão enfeitados quanto os destinatários.
Esses não tiveram um bom dia na São Paulo Fashion Week, pensou ela.
Ao lado, outro casal compartilhava o cardápio, fazia o pedido e dispensava o couvert. Ele tomou uma tônica com rodelas de limão e ela um suco de laranja. Não trocaram uma palavra. Ela olhava o celular a todo momento, decerto para ver se algum filho ou neto ligaria. Ele olhava impaciente o relógio resmungando alguma coisa sobre o horário da locadora de vídeos. Dispensaram a sobremesa. Depois do café, ele jogou o cartão de crédito sobre a mesa, pediu um palito ao garçom e saiu tateando nos bolsos um urgente cigarro. A mulher ficou ali, sozinha, ainda saboreando seu espresso com creme, distante e entediada, enquanto aguardava a conta.
Casados há muito tempo, foi o diagnóstico.
Perto da porta de entrada, sentou-se um casal vestido modestamente. Esquadrinharam o salão admirados. Via-se que não estavam acostumados a um ambiente desses. Parecia ser uma ocasião muito particular. Olharam o cardápio demoradamente e devem ter achado tudo muito caro. Mesmo assim, ali permaneceram conversando. Em determinado momento, ele tirou do bolso da jaqueta uma caixinha discreta. Um presente de aniversário, talvez. Quando ela retribuiu o mimo, escondido até então numa bolsa enorme, a charada foi desvendada: aniversário de casamento. Não mais que dez anos. Também dispensaram a sobremesa, mas demoraram ainda muito tempo no local, tomando guaraná e coca diet , um penetrando o mais fundo que podia nos olhos do outro.
Uma flecha de inveja e saudade acertou seu coração. Passaram pela sua cabeça todas aquelas comemorações,viagens, festas da sua vida a dois. Mas durou pouco. Haviam construído uma história linda e ele estragou tudo. Dane-se. Ele jogava com o casamento como se estivesse numa quadra de futebol. Um arranhão aqui, uma canelada acolá. Sempre na expectativa de fazer um gol para seu time de autopromoção. Acabou.
Perdida em seus devaneios, não se deu conta de que o restaurante estava quase lotado. Foi aí que avistou aqueles dois, mais ou menos da sua idade, com jeito de quem estava tentando de novo. Meio tímidos, desajeitados, mais gesticulavam do que conversavam. Ele pigarreava muito, talvez mais pelo nervosismo do que pela herança que o tabaco possa ter deixado.
E aí, respirou aliviada. Também ela teria outras oportunidades que valessem a pena. Uma companhia, um amigo. Nada que a trancasse na rotina nem que a cobrisse de exigências. Novos ares, sensações inéditas.
Satisfeita consigo mesma, pediu um talharim de pupunha com manteiga de camarão e molho de açaí, sorriu para todos e, meio alegrinha por causa do álcool, fez um autobrinde sincero a seu aniversário de descasamento.

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Tem artigos espalhados em revistas e folhetins; atua em empresas como consultora para a produção de textos e instrutora de cursos de Redação e Gramática. Publicou o fichário SOS-Língua Portuguesa, em parceria com Edna Maria Barian Perrotti

Eu já me vi morta (crônica)


Valéria S. Dantas Lopes

Eu já morri de tristeza, morri de vergonha e de rir, morri de dor, morri de sede e de fome, já morri de amor...
Qualquer um de nós já usou e usará o verbo ‘morrer’, em exagero, para intensificar o que se sente impacientemente.
Morrer ou passar dessa para melhor, bater as botas, vestir o paletó de madeira, esticar as canelas, animar festa no céu, comer capim pela raiz é estar morto e enterrado. Isso ninguém quer.
A primeira vez que pensei que morreria, não morri.
Naquela noite fria de junho, com uma arma apontada pra mim, um dos malvados, o moreno sem rosto, segurava meu braço, indeciso se me levava ou não junto com seu parceiro louro, também, sem rosto.
— Vamo levá ela! — instigou o louro.
Tremi, gelei, sobrevoei o chão numa nuvem cinza... Ele queria morte. Vi isso na sua voz irritante e insistente, ouvindo as faíscas que saíam de sua boca enorme.
— Tem segredo? — o moreno me sacudiu.
Eu tinha segredos, sim, mas o carro tinha apenas um que lhe disse num fôlego só:
“O senhor precisa pisar na embreagem pra ele ligar. Só isso.”
— Se esta merda não ligar dá um tiro nela! – disse o louro, querendo ver sangue, enquanto o moreno me segurava ainda, mas já sentado no banco.
Eu rezava ou gemia calada ou fazia qualquer coisa que não sei o que era. A atmosfera pesada me impedia definir qualquer sensação.
O motor soou alto, o moreno sem olhos, sem nariz, mas com dentes e boca , me sorriu amargo, soltou meu braço e antes de ir, me falou rispidamente:
— Se eu parar mais à frente, volto pra te matar.
Morri antecipadamente. Meus pés flutuaram novamente. E se foi, sem tempo de me despedir da minha bolsa preta de camurça e franjas no banco de trás. Em tempo de eu ver os fios louros do carona, balançar ao vento com a arrancada. Em tempo de ver meu possante verde, pela última vez, que sumiu na poeira, sob a cantoria dos pneus.
A segunda vez que pensei que morreria, não morri.
Naquela noite amena de outubro, o lugar era o mesmo, a arma era outra. As pessoas eram outras. Nem uma nem duas, mas cinco. Quando estacionei, um carro parou próximo ao meu e pensei que eram convidados da festa, assim como eu.
“Mas convidados não trazem armas de presentes..." Pensei ao ver o cano longo na mão de um rapaz que eu via da cintura pra baixo, vindo na minha direção.
Não sei com que mãos abri a porta e com que pernas saí do carro. Só sei que já estava com as chaves estendidas para ele antes que me dissesse qualquer palavra. Aparentemente tranquilo, atrevida, me atrevi:
“Leve o carro, mas antes posso pegar minha bolsa?”
— Antes, posso te matar? Cale a boca, vadia! – me respondeu, irritadíssimo, um outro que estava não sei onde. – Ande! – sua última fala.
Emudeci. Não sabia se eu ia pra direita, pra esquerda, se desmaiva ou deixava pra depois, se corria, se chorava, se gritava... Andei meio torta, meio lenta, meio mole, meio eu, inteira em medo.
Quando ouvi o ronco do motor e o cheiro de pneus queimados, suspirei
aliviada.
A terceira vez que pensei que morreria, não morri.
Não tinha armas nem homens maus. Mas foi pior, muito pior.
Naquela tarde fria de junho, achei que tinha morrido de verdade.
Um caminhão tanque tombou e deslizou na estrada, na pista contrária, derrubando parte da mureta de sustentação.
Era branca a cabine.
Era clara e verde a estrada.
Era cinza meu carro.
Era vermelho, azul e amarelo o fogo.
Rodas enormes deitadas sobre o combustível preto e brilhante esparramado pelo asfalto.
Do lado oposto vinha meu carro, trepidando por cima dos escombros da mureta. A carreta explodiu uma, duas e mais vezes e o fogo veio cobrindo com suas cores meu carro cinza, rapidamente.
Eu olhava  um ponto fixo no lado direito do vidro.
“Meu Deus, é o fim...” Disse assim com reticências.
E me vi morta. A pior sensação que senti na vida.
Passei pelo fogo como numa cena de filme.
Morri?”
Milagre. Estava vivinha da silva.
Olhei ao redor, abri a porta e corri pela estrada livre, calçando apenas uma sapatilha.
Olhei para trás e vi meu carro preto que era cinza e a carreta de cabine preta que era branca explodir mais e mais.
Eu sempre acreditei no milagre da vida e, agora, acredito que se pode nascer de novo.

Valéria Lopes é escritora

Mãos de condão (poesia)

Por Angela Leite de Souza

Quando vejo anjos
de cachos barrocos
fazendo caras e bocas
entre as nuvens do altar
de uma igreja em Ouro Preto,
quando encontro algum profeta
fingindo ser estátua,
ou quando chego perto
dos Passos de Congonhas,
me ponho a imaginar
como foi que Aleijadinho
de suas tristes mãos
fez varinhas de condão
e trouxe para a vida
a arte adormecida
no silêncio da madeira
e da pedra-sabão.

Ângela Leite de Souza é escritora e ilustradora, associada à AEILIJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, à ABIPRO - Associação Brasileira de Ilustradores Profissionais e à FNLIJ - Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil

Ana Maria Machado (poesia)

Por Marcílio Godoi

E então ela disse bem
Não importa como surge,
Interessa, urge, saber de onde vem.

Vem da mecânica mole do molusco na casca do acaso,
Vem do Parnaso que todos temos no oco da testa
Quando só nos resta temer por um novo soco.

Vem da ata da convenção anual dos fantasmas da gente
Que aprovou por unanimidade inteligente
Um manifesto de repúdio ao real.

Vem do descontrole remoto da memória,
Vem da história do passado a limpo tantas vezes
Que imprimiu de revezes o mais que perfeito retrato.

Vem do lixo tirado diariamente do aterro,
Vem do erro deslocado da margem sua
E trazido para o meio da rua.

Vem do fato de se estar atento
Ao incansável trabalho do vento na pedra dura do sapato,
No tento, na pele cansada do fato sobre o pensamento.

Vem da caixa de surpresas da última tempestade,
Vem da cidade e sua intimidade, sua umidade, sua unidade,
Vem com a idade, vem contra a vontade.

Vem do intervalo de coisas que há nas coisas,
Por exemplo, no que há de árvore entre duas árvores no descampado,
No que restou de céu no pássaro pousado, desavoado.

Vem da migalha de pão sobre a mesa
Vem da florantena de éter da beleza
Vem de não saber bem de onde vem.

Vem do quando o instante é mulher
Vem do quando der de vir, sem se ver a cara da fera
Que ataca e vem de onde menos se espera.

Vem do que dela ficou por aqui
Vem de sua fala para sempre agora
Já que sua presença veio e não quer ir embora.

Marcílio Godoi é autor de "São Paulo, Cidade Invisível", uma reportagem literária sobre personagens marginais à grande metrópole (vencedor do Grande Prêmio Cásper Líbero); "Ingrid, uma História de Exílios", a saga de uma mulher em busca do passado misterioso do pai; "A Pequena Carta", uma fábula sobre a carta de Caminha; "Pequeno Dicionário Ilustrado de Palavras Invenetas", um ensaio lúdico com neologismos; entre outros títulos. Arquiteto e jornalista, é mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Escreve há quatro anos a Coluna "O Português é uma Figura", na Revista Língua Portuguesa. Colabora em alguns sites de opinião e é diretor de conteúdo da Memo Editorial. Ilustrador filiado ao SIB, é mineiro de Araguari, tem 48 anos e é professor convidado há cinco anos do GVPEC, da Fundação Getúlio Vargas, São Paulo (www.marciliogodoi.blogspot.com)

Traças (poesia)


Por Rodrigo Domit

As traças devoraram livros
e destrincharam jornais
as traças roeram músicas
e mutilaram filmes

naquela época,
devoraram até pessoas
— famílias inteiras


Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram
e as traças esconderam-se

em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
– como se fossem invisíveis


Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe
a tarefa indispensável

de revirar armários
e destrancar gavetas
de explorar porões
– sem esquecer dos sótãos

de jogar luz aos fatos
descortinar as traças

para evitar que se repita
a tragédia como farsa

Rodrigo Domit nasceu em Curitiba em 1984, mas foi criado em Londrina e reside atualmente no Rio de Janeiro. Escreve contos e poesias desde 2003. Tem publicações em antologias de concursos literários e é autor dos livros de contos “Vem cá que eu te conto” (2010) e “Colcha de Retalhos” (2011). Administra o blog http://concursos-literarios.blogspot.com e publica exercícios literários no http://tirocurto.blogspot.com